Análise – Bolsonaro arrisca reação com desfile militar conjunto e comício de campanha

BRASÍLIA (Reuters) – O esforço do presidente brasileiro Jair Bolsonaro para transformar uma parada militar do Dia da Independência em um evento político para sua campanha de reeleição se tornou um teste de lealdade das Forças Armadas, disseram generais e analistas aposentados.

Bolsonaro está convocando seus apoiadores para participar de um comício na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, em 7 de setembro – menos de um mês antes da eleição presidencial. Ele também ordenou que os militares desfilassem lá em vez de sua rota habitual no centro da cidade.

Isso alimentou preocupações de que o ex-capitão do Exército de extrema direita está arrastando os militares para a política para compensar sua popularidade em declínio – uma reclamação cada vez mais ouvida tanto por críticos civis quanto por ex-militares.

“Como comandante-chefe, ele tem todo o direito de mudar o local do desfile militar, mas não de vinculá-lo a qualquer atividade de campanha”, disse o general aposentado Paulo Chagas. “Isso é ultrajante. Os militares devem ficar fora da política.”

Caricaturas políticas sobre líderes mundiais

O calçadão de Copacabana não é um caminho adequado para tropas e veículos blindados, disse Chagas, um oficial de cavalaria que desfilou quatro vezes a cavalo pela habitual Avenida Presidencial Vargas, no centro do Rio.

O papel das Forças Armadas na política é particularmente sensível desde que o Brasil esteve sob uma ditadura militar de 1964 a 1985.

No ano passado, segundo pessoas a par do assunto, Bolsonaro demitiu seu ministro da Defesa e os três principais comandantes das Forças Armadas brasileiras por se oporem a manifestações públicas de apoio político.

“Bolsonaro joga com a fantasia de que encarna a vontade das pessoas identificadas com as Forças Armadas”, disse Christian Lynch, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, comparando seu uso de prestígio militar a um “parasita”.

Nem o gabinete de Bolsonaro nem o Ministério da Defesa responderam aos pedidos de comentários.

Os esforços de Bolsonaro para confundir as linhas entre o poder militar e político também ocorrem à medida que ele aumenta os ataques aos principais tribunais do Brasil e as críticas ao sistema eleitoral do país.

Bolsonaro fez alegações infundadas de fraude nas eleições recentes e ameaçou ignorar os resultados da votação de 2 de outubro, cujas pesquisas mostram que ele agora está perdendo para seu rival de esquerda, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O presidente conseguiu que alguns oficiais do exército expressassem suas dúvidas sobre a integridade do sistema de votação eletrônica do Brasil, alimentando as tensões com o Supremo Tribunal Eleitoral, que administra as eleições do país. Bolsonaro também propôs uma contagem paralela de votos por observadores militares.

“O exército está do nosso lado”, disse ele em um comício político na semana passada.

Mas o analista político André Cesar disse que não ficou tão claro.

“Os quartéis de Bolsonaro estão divididos. Há críticas a ele entre oficiais da ativa e aposentados”, disse Cesar, sócio-fundador da consultoria política Hold Assessoria Legislativa, com sede em Brasília. “Eles estão cada vez mais desconfortáveis ​​com o comportamento dele.”

Carlos dos Santos Cruz, general aposentado que serviu no gabinete de Bolsonaro em 2019, disse que os brasileiros podem recusar os esforços do presidente para cooptar o feriado que marca 200 anos de independência nacional de Portugal.

“Se o presidente quiser dar a isso uma conotação política, vai sair pela culatra. O povo brasileiro sabe que não deve ser usado para campanhas políticas”, disse Santos Cruz.

Nem todos estão tão tensos com a ideia de uma celebração conjunta militar e civil.

Paulo Kramer, professor de política da Universidade de Brasília, minimizou os riscos de uma ruptura democrática envolvendo os atuais líderes militares do Brasil.

“Se você falar com coronéis e generais hoje, eles não querem ouvir sobre um golpe”, disse Kramer. “As Forças Armadas do Brasil demoraram tanto para recuperar sua reputação (pós-ditadura) e agora estão entre as instituições mais valorizadas do país.”

Mas Bolsonaro, que foi dispensado do exército em 1988 em meio a alegações de agitação política e desobediência, construiu sua identidade política na nostalgia da ditadura brasileira e no desprezo por certas instituições democráticas.

No Dia da Independência do ano passado, ele organizou manifestações de rua, chamando a eleição de 2022 de “farsa” e ameaçando desrespeitar as ordens da Suprema Corte. Muitos de seus apoiadores pediram o fechamento da Suprema Corte e uma tomada militar do governo.

Na terça-feira, Bolsonaro pediu a seus apoiadores que compareçam em massa ao seu comício de 7 de setembro novamente este ano.

“Ninguém quer um golpe. Haverá eleições. Mas queremos transparência”, disse ele em entrevista à rádio.

(Reportagem de Anthony Boadle; Edição de Brad Haynes e Angus MacSwan)

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Fernão Teixeira

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